quinta-feira, setembro 07, 2006

miles davis e sozinho

poetinha me salve
eu que não curo minha solidão
poetinha você que disse
me adular em qualquer ocasião
e eu só aqui faço o quê?
se não esperar
e lamentar um olhar vazio
quero dormir e esquecer
mas hoje foi flórida
e nesse frio - floripa
hoje foi despedida
foi o fim
simples fim
de nunca mais ver
de não poder mais existir
de matar até a esperança de sorrir
de não saber mais
por que seguir
tonto e torto
ouço miles davis madrugada a dentro
e me lembro que sozinho todos estamos
os vivos na 58 miles
os mortos que desistiram de tudo anos atrás
essses últimos, meus amigos
"vivem" andando comigo
e sussurrando especialmente em dias assim:
- venha, nós contamos contigo
podes me achar louco, e até repetitivo
minhas lamúrias, meus vícios
mas a fuga direto para o fim
não parece por demais um alívio?

lindo limbo 1


o silêncio toca lá fora
o sopro que ainda queria
o cortejo passa as quatro
no meu terraço
são pequenas peças de xadrez
que vejo cair dos seres das nuvens
são pequenas peças de xadrez

espane o pó de dentro da caixola
leve ao universo dos intelectuais
lá, será mastigado e jogado fora
eles te usam e nem te dão esmola
te jogam na rua da amargura
e roubar, é a única promessa de se salvar

quem vai querer subir na torre
e só ver o céu de lá?
quem vai querer um rio de desgraça,
é pressa, pra que pular?

limbo
lindo-limbo
quero ver de perto e rir de ti
eu que peço clemência a mim
(eu me desgraço)
lindo-limbo

lindo limbo 2

sabe. é triste saber que o mundo todo dorme
e você não
que todos riem em seus sonhos
e você não
sonho acordado com o dia que dormirei em paz
finalmente
volta aos meus sentidos
esses desejos aflitos
é nessas desgraças que me sinto mais eu
é nesse denso esgoto que viro
me viro e me remexo
aqui bato no peito e grito:
minha lama
eu a criei e consumo
do meu suor, das minha lágrimas
dos meus cabelos e desejos desesperados
de verões com os pés engessados
e invernos de arder narinas
quando tudo que mais faço na vida é chorar
olhe pra mim
não vês que o estou o fazendo agora?
o que me dá?
saudade do mundo
dos amigos
de amores
de tudo
até de ser feliz
frugal, e lívido
tudo que esqueço a esta hora lúgubre
é pântano a minha alma
é pântano o meu visco
denso você disse
é o quinto estado da matéria:
o meu limbo

redenção? primeiro passo

e que saudades dos meus amigos
como foi bom vê-los aqui
como chorei em alegria
como me esqueci de repente
das minhas dores nas costas
engraçado como a noite ficou mais triste sem vocês
engraçado como vocês faltam em mim
um me diz: -sabes o quanto tocastes a nossa vida também?

engraçado como as outras que ficaram não são nem faísca de você
não tem um pouco da sua classe
nem um pouco de seu desespero
elas assim são até nojentas
ando numa fase de odiar todas elas,
as cromossomo XX
salvo ela e você minha amiga
você então meu amigo,
que saudades de você
do seu bem estar
de só estar com você, sentir essa felicidade
desse olhar de menino tão confuso e certo de tudo
me questionando, não me entendendo
como é mesmo que continuio a viver?
eu mesmo me pergunto todos os dias...
eu mesmo...
como ainda vivo?

hoje eu sei, é por vocês
e por essa moça aqui em frente de vermelho
e com essa buchecha que todos:
TODOS AMAM
só eu sem esperança-idiota-e triste
reneguei esse presente da vida
eu idiota, mas tudo se resolve
hoje tô voltando ao meu caminho
ver vocês, viver com ela
pensar em vocês e fazê-la o mais feliz possível
dar um pouco do néctar de vida de volta
que ela me emprestou por estes dias
e que eu visse nos seus olhos minha recuperção
desse ser praga e rançoso
por vocês vejo que ainda tenho redenção
só por vocês!

terça-feira, setembro 05, 2006

vaselina

liberar podridões madrugada a dentro
por medo de morrer sozinho e esquecido
segurar varões e vontades
ímpetos de tragédia
por sonhos não vividos
ser triste e feliz
usar máscaras a cada dia
rodopiar mais que planeta
e cair em centuriões já navegados
se sentir pela enésima vez só
eu devia arrumar um amigo japonês
ele haveria de estar acordado a esta hora
eu que não consigo dormir
com medo de aproximar mais rapidamente o próximo dia
eu que não consigo viver
estancado em carinhos negados e criadores de apatia
eu que me atenho ao céu
a terra
até ao capitão planeta
me salve disso por favor que já não aguento mais
não me prendo mais em nada
são todas algemas de algodão doce
e meu corpo e feições: vaselina

velho quadro

retire qualquer som, calma
pense duas vezes se não estraga
altere a transmissão para pegar os dados corretos
tenha a dedicação de puxar os verdadeiros sacos
siga em frente, batendo em transeutes
esqueça de mim que não sou importante
algo em sua vida quebrou quando desviastes o olhar
quando se deixou vislumbrar apenas temporário
negue tudo aquilo que um dia vai ser
cuspa o sangue e a bala que irá chupar
desça,
desça,
até o fundo da sua alma e não encontrarás nada
ninguém lhe habita nestes dias
o frio que tomas é velho parceiro: é solidão
meu velho mancebo
verde de gelereiras glaciais
e o que vira antes, adultos infestados de sorriso
fora apenas um quadro mal pintado
e hoje pendurado torto na parede

sexta-feira, setembro 01, 2006

brenda

ei menina
como voou
como foi que
o tempo cresceu
tanto assim

onde estava?
do seu lado
mas não vi
podia ter chamado
minha atenção

já passou
mas nem tanto
tens tão pouco
de sua criação

ei minha menina, eu vi
você maior que eu
ei minha menina sabe
que nem tudo está perdido

se Deus quiser
que seja assim
que seja então

cuidado com a minha menina, viu?
ela não sabe mas é especial



escrito em 2000 depois de uma visita que fiz
é incrível ver um ser-humaninho se desenvolvendo
um beijo pra você
sempre vou te amar incondicionalmente
seu irmão

republicado para que ela possa ler aqui

cuspe bruto

que é isso? Esse medo da vida que faz estranhar os pensamentos. quando até se deseja a morte, bem, somos maquinados a achar tudo errado, a felicidade é utópica, os gritos não-ausentes e o que é ideal está num pedestal na prateleira pegando poeira enquanto assistimos qualquer outro programa ou bobagem dissimulada e filmada. Apenas para pequenos mosquitos não nos atrapalharem o trânsito, apenas uma aspa mal-interpretada, é claro que sofro, é claro que sinto, mas quase desejo o pior que parece o oposto, às vezes quem sabe pode ser até melhor se fuder em algum momento da vida, mas até isso é divagação e contraditório. Eu quero mesmo é me solidarizar com vossas vidas, o que ninguém fez por mim… talvez me sentir superior por isso, mas será que estou enganado? Ou sou apenas mais um merda morrendo e rindo nesse mundo maldito (não canso de dizer isso: mundo maldito, que se foda as suas leis, puto) e quem tem o direito de fazer mal à alguém, já não basta esta vida de sofrimentos, ou se pode dizer que não há pior que a solidão ou a certeza do fim, com todas as letras:
VAMOS TODOS MORRER

Rio nebulosa

os táxis andam a vapor no Rio
na noite chuvosa e clara
a lua é o calor no frio
os pingos grossos e a chuva rala

faz calor no Rio
umidade que o tempo chora
faz calor e frio
como se treme agora

um homem sai do rio
senta na beira e chora
o coração frio
por tudo que acontece agora

uma gata-fêmea no cio
o dever de ir embora
fuga no veículo
mais uma menina chora

duas almas de coração vazio
dois corpos de alma que chora
se encontraram no Rio
viveram sua história

e assim segue o Rio
do tempo de agora
de amores, calor e frio
cenário dessas histórias
palco dessas histórias
criando essas histórias

escultor de mágoas

nunca soube lidar bem com os meus fracassos
os ergo em medalhas esculpidas em aço
carrego-as junto ao meu corpo
cada vez mais cansado e pesado

ando metros que parecem léguas
sinto vacilar as pernas
lembro de todas as desventuras (minhas)
penso que essa mágoa será eterna

os braços duros de tanto carregar
achar que não há mais força mas há
para esculpir outra medalha e carregar
carregá-la até me entregar

quando olho para frente não consigo ver
é tanta mágoa para dissolver
quando olho para trás consigo enxergar
claramente, cada pecado do teu olhar

é claro que mesmo amargo continuarei
a lembrar de suas ações ordinárias
pais para sempre serei
um eterno escultor de mágoas