quarta-feira, março 09, 2016

Coerção


Era uma criança, filho do chefe da tribo
Viviam na África, mas chamava apenas de lar
Os brancos que deram esse nome
Um dia lhe prenderam, colocado a ferros
Transladaram em coerção para o Brasil
Trabalhou à força e morreu antes dos 15 anos...

Era uma mulher, foi à rua com suas saias até as botas
As amigas queriam votar, ela também
Acusadas de quererem ser iguais aos homens
A polícia as trancafiou em coerção nos seus porões
Voltou às ruas, impediram-na de trabalhar
Morreu tossindo antes do Inverno passar...

Era um homem que gostava de outros homens
Até se vestia, em ocasiões especiais, como as mulheres
Sentia-se como uma, era especial e perfeita como todas
Saía às ruas para esquecer da opressão e sorrir
Numa esquina obtusa e um carro de vidros fechados
Foi amordaçada em coerção, usada e abusada,
Encontraram seu corpo em um rio anos depois...

Uma menina negra que só queria estudar...
Uma outra, que apenas sentou em um outro lugar do ônibus...
Uma mulher que só queria viver livre... (assim como tantas, dia após dia)...

Um outro homem queria pagar as contas de sua vida
E dar de comer aos filhos
Trabalhava em máquinas pesadas que soltavam fumaça demais
Achou que seu trabalho valia mais que o salário
Achou que poderia descansar aos fins de semana
Foi levado em coerção para os fundos de uma fábrica
E mais uma família foi impedida de sustento...

Um velho que lutou pra sobreviver desde sempre
Da fome, da ditadura, das crises e desemprego
Que ousou ensinar como viver melhor
No meio de tanta proibição, restrição, freio, limitação, repressão, censura e impedimento
Foi constrangido, em holofotes,
A seguir em coerção 200 homens armados...

Desde sempre, a coerção tem um lado
E também, o sangue derramado ...













Foto: Mídia NINJA





domingo, fevereiro 14, 2016

Férias c´est fini

Férias, férias, férias
se fossem eternas
seria uma rima
e também uma solução

A vida se impondo com seus tentáculos
entrando por cada vão dessa rede
escapulindo e ruindo sua vontade
seu eu
de tantos em tantos
de momentos em momentos
de pequenos e maiores desastres
você perde o mapa de si
e só sabe tentar contar estrelas

Tudo passa tão depressa
eu queria...
eu queria...
deixa pra lá,
vá dormir que amanhã o dia é longo
um começo (mais um)
 de um longo ano (mais outro)

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Futuro do pretérito

Eu sou o amor que você deixou pra trás
uma pegada na areia
sentado em reviravoltas
poderíamos ser duas novas estátuas da sala de estar
risonhas, balbuciantes
esquecedoras dos medos de solidão eterna
eu sou o garoto que te amou mas era esquisito demais pra te dar um beijo
eu ria em momento errados
apesar de ser o único a entender suas piadas
as espinhas no meu corpo te faziam criar uma cara
eu era a morte chegando, fria como sempre, mas acompanhada
eu estaria de mãos dadas e limparia seu último suor com minhas lágrimas
e dois dias depois de te entregar aos que comem o resto da alma
eu descansaria de uma péssima noite
Meu corpo desistira de se habituar a não te ter por perto
seria o fim de uma jornada,
um trabalho bem feito
te acompanhar em cada virada do Sol pela Terra
e ser seu mais que fui de qualquer outra pessoa
Poderia ser...
Mas você nunca sequer olhou pra mim dessa forma.

sábado, junho 13, 2015

um invisível

Eu sonhei que havia tempo de dormir
que uma cama receberia meus sonhos e cansaço
mas a cidade cobra caro sua passagem
só sujeito homem para ficar aqui entre os carros
ontem eu vi uma senhora ser atropelada
gritou como um porco embaixo da carroceria
eu não pude ajudar,
ontem, eu queria descansar
mas as obras da manhã não puderam deixar
o caos vencerá,
e eu, uma poeira neste cosmos
ando daqui pra lá
sem atenção
sem importância
o homem invisível (como tantos outros)
cheio de rancor, ódio e dor nos ombros
um estômago pulando
além das tratativas e negociatas mal feitas
é isso que basta a um ser humano?

sexta-feira, maio 29, 2015

Mais estranho que a ficção

Adoro esse filme: Mais estranho que a ficção.

))))))))))) Atenção SPOILLER((((((((((((((

A história de um sujeito que passa ouvir alguém narrando a sua vida e que em dado momento, essa voz da narradora prevê a sua morte, sendo que, a partir daí ele decide e muda completamente de vida... O que mais gosto do filme está exemplificado no final. Em um diálogo entre a narradora que não sabia escrever até então a história de um homem que existia e um professor de literatura. Ela decide poupar seu personagem e mudar o final do livro e ele pergunta a razão disso, no que ela diz:

- Eu entendi que não podia matá-lo,... porque é um livro sobre um homem que não sabe que está prestes a morrer e morre. Mas, se um homem sabe que vai morrer e morre assim mesmo, morre voluntariamente, sabendo que poderia impedir..., não é o tipo de homem que quer manter vivo?



Adoro isso no personagem, ele se despede da sua vida e mesmo assim faz o que tinha que fazer, entregando-se à morte...



No final ainda tem em off uma excelente cena que reproduzo... é quase uma auto-ajuda pra mim, que gosto de rever sempre quando preciso lembrar de alguns porquês. Eis a cena final:


sexta-feira, março 27, 2015

segunda-feira, março 09, 2015

Amiga, antes de mais nada

Amiga, antes de mais nada, saudades

não como quem diz: bom dia, boa tarde
saudades como quem pula pela janela
e se segura por um fiapo de roupa enganchado
assim são minhas saudades de você
uma urgência e um tornado de sentimentos envolvidos

em segundo, uma história...
Dizem que o João Gilberto é o ser mais cheio de comportamentos anti-sociais que se tem notícia. Certa vez ele, convidado para uma festa, foi à festa, apenas para na porta do apartamento, dizer ao anfitrião que agradecia o convite, mas não iria poder ir ... dando meia volta e indo para casa.


Vi sua postagem, adorei seus textos, tenho lido os que você escreve.
Mais ainda, gostei de figurar na sua memória.
Mas ando calado, a vida tem sido mui pragmática, e ando lutando pra, pelo menos esse ano, ser mais pé no chão.

é preciso, é necessário.. preciso dar atenção a outros aspectos mais cinzas da vida
guardo meus nanquins para outro momento...

volta e meia eles se soltam, fazem uma balburdiazinha, mas tímidos, voltam ao estojo...

minha arte anda calada, bicho ferido... de um ponta aguda, de uma adaga

por isso, venho aqui, te dizer, que não venho...

peço mil desculpas, ando escrevendo o menos possível para não surtar

sabendo que isso me causa mais mal e que um dia uma outra vida há de cobrar essa conta

mas foi preciso...

o fim da banda, o fim... eu sei que estou entre começos...

Mas neste momento, busco e sinto meu silêncio...
um enganoso sossego

que um dia acaba, eu sei...

mas até lá é bom fazer psiu pra minha alma

deixa ela quietinha aqui..

pode ser?

você continua o que sempre foi pra mim...

sábado, fevereiro 07, 2015

um segundo de alívio

Eu vou ali
pegar um punhado de conforto
tentar no esforço
me sentir menos infeliz

não dá pra ser sempre assim
seu rosto é belo como o torso
nú, eu quero esse bolo
todo só pra mim

quem sabe dessa forma
se manda essa nuvem embora?
quem sabe sai de mim
o que me deixa infeliz?

acho difícil
meio impossível
carregar uma mancha por anos
e limpar como que em feitiço
mas você consegue, em momentos
me livrar um pouco de tudo isso
eu sou agradecido
um segundo de alívio
em séculos que mal consigo
me livrar da água turva
eu sequer respiro.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

era pra ser... simples assim

essa é uma palavra de tristeza
dentro de um escrito unido por sílabas de tristeza
com letras solitárias forçadas a caminharem juntas
sabendo que o destino é um poema mal acabado

esse é um respiro
um falso início de um novo parágrafo
chega uma idade e todos já sabemos
todos os truques dos magos

a noite avança em desperdício
era um homem, um ser cheio de mágoas
que caiu da ponte e o mar levou

era uma história para ter um fim feliz
mas ninguém sabe ao certo
se, e quando é o fim de histórias assim

era pra ser eu ali naquele quadro
na foto feliz
mas não gosto de mim mesmo
e dia sim e dia não nem quero estar vivo
quanto mais, quero algo específico

era pra ser... simples assim

terça-feira, fevereiro 03, 2015

Ela (Crônica - conto)

Passo por ela na portaria de serviço do prédio, ela está terminando de fumar um cigarro. Alguns detalhes visíveis e a idade me fazem concluir que sua história, cheia de altos e baixos, teve mais momentos tristes...

Não a cumprimento, eu evito pessoas e seus olhares, julgamentos, falsos sorrisos. Não é medo de me machucar com suas reações sociais ditas normais - nunca fui de saber como me comportar direito em cada situação mesmo. É o inverso que me incomoda...

Cheguei no elevador e ele não estava ali, aflito apertei mais de uma vez o botão. Não acelera o elefante de metal, mas me faz sentir que tenho algum controle e talvez possa evitar acontecimentos desnecessários...

Tarde demais, a moça volta de seu momento relaxante. O cigarro havia terminado, de volta à realidade. Dá boa noite, eu murmuro qualquer coisa de volta que se entende como equivalente à um aceno gentil. Seguro a porta para ela passar, entro e aperto o botão do meu andar.

O fone de ouvido, a minha cara de impassível não foram suficientes ... ela precisava desabafar, exclamar. E que situação melhor falar com um desconhecido que nunca te vira antes, em um prédio onde as pessoas não se importam com ninguém? Começou:

- O cigarro... -  e fez uma pausa dramática pra assegurar que eu estava preso na sua rede de atenção.

Eu tirei um dos lados do fone e olhei para ela. Ela tinha passado pelo meu teste inicial, se vai valer a pena ou não ouvir as pessoas. Quando elas querem muito e precisam, não há etiqueta social, cara de poucos amigos, impessoalidade e fones de ouvido que as controlem... elas desabafam, elas precisam disso. Então, ela continuou ao me ver esperar na porta do elevador, já aberta e impedida de fechar por mim:

- Eu já tentei parar, mas aí sempre acontece alguma coisa...

Eu esperei por mais, aquilo deveria ser o suficiente para ela. Talvez ela só precisasse de alguém para ouvir seu lamento. Aquela noite ela conseguiria dormir, depois daquele instante. Depois de colocar aquela frustração para fora e ter um desconhecido que a ouvira no elevador de serviço do prédio.

Eu olhei seu rosto, estava em paz. A sua feição era de alguém que batalhou bastante e por alguns segundos se deu um respiro, um pequeno alívio...

Poderia ter deixado a porta do elevador correr, a noite dela estava garantida. Mas, eu não gosto de ver as pessoas em paz. Eu não gosto de ser consolo de ninguém, simplesmente porque sei que não importa o que se faça sempre há uma única conclusão e eu falei com todas as letras enquanto a porta corria:

- A vida é uma merda, não sei por que a gente ainda tenta.

E o elevador se foi, aquela mulher se foi junto com ele. Eu virei as costas, e agora sim, eu poderia dormir em paz.